A Igreja e Kennedy

A Igreja Católica está acima de facções políticas de sistema de governo, e de qualquer atividade que vise à gestão das coisas da terra. A jurisdição temporal da Igreja está condicionada aos negócios, também terrenos enquanto esses estão vinculados aos interesses eternos dos homens, que deverão ser salvos por ela. A relação Igreja ou melhor Gov. Eclesiástico – Gov. Civil é a mesma que existe entre Espírito e Corpo, a mesma que há entre Eternidade e Tempo. Entre esses realmente nenhuma interpenetração, nenhuma intromissão, nenhuma confusão a não ser colaborações recíprocas. Se não existisse uma harmonia consumada entre Eternidade e Tempo. Espírito e Corpo, os espíritas é que teriam razão, criando um elemento intermediário, certamente para justificar a grande incidência de loucura entre os que se dão a praticas do espiritismo. E certo que entre Igreja e Estado visando ambos o bem comum da sociedade não deveria haver apenas respeito mútuo, ou desconfiança, mas aliança e perfeita separação de tarefas sempre que se tiver em mira necessidades especificas do homem, isto é, o que se refere ao corpo pertence ao Governo Civil e o que se refere à alma, ao Governo da Igreja. Não é corpo que pensa quando a alma exerce suas atividades imanentes; como também não é a alma que come quando o corpo realiza suas ações fisiológicas. O que há é uma compenetração de atividades sem confusões perturbadoras da harmonia orgânica.

A Igreja desde a sua entrada na cena do mundo, apareceu munida de uma noção essencial, então inteiramente nova. Ela trazia uma verdade religiosa, uma lei moral de caráter universal que convinha todos os homens de todas as nações. Para espalhar essa verdade, essa lei de valor universal, ela devia conservar se independente de todo Estado particular; ela devia conservar o direito em face do poder temporal em toda a comunidade nacional, a uma independência que lhe permitisse exercer livremente o seu ministério. Mas a determinação das condições em que ela deveria exercer essa independência não deixava de suscitar dificuldades infinitamente complexas. Para se impor, a nova lei moral foi desde logo obrigada a levar em conta as condições de existência e de vida da sociedade em cujo meio ela apareceu.

Como vemos é necessária a existência de um acordo entre os dois poderes, Isso porém não implica que o representante do poder civil deva ser católico ou mesmo cristão. O que a Igreja exige é que os chefes do poder se utilizem da razão ou pelo menos creiam no seu valor para chegar-se a esse acordo.

Teoricamente à Igreja não importa que Cesar seja cristão, judeu, muçulmano ou soviético. O que importa é que se mantenha a doutrina de separação e equilíbrio entre Cristo e César. Essa doutrina de separação harmoniosa que não fere de modo algum a superioridade em princípio do espiritual sobre o temporal.

John Fitzgerald Kennedy, é primeiro Presidente dos Estados Unidos da América que recebeu o nome nas águas lustrais do Batismo administrado pela Igreja Católica. Católico, Kennedy deverá comportar-se como tal privada ou socialmente, sem contudo pedir à Igreja opções temporais para formular um sistema de governo. Governar como católico não é governar com a Igreja. Reduzir Cristo e Cesar a Cristo apenas seria incidir no teocratismo, hoje superado e repudiado pela própria Igreja. Fazer como os judeus, querer apenas Cesar, e erro moderno seguido pelo totalitarismo comunista e fascista.

Sem dúvida, assegura Leão XIII, a Igreja e a sociedade política têm cada uma a sua soberania própria e por conseguinte na gestão dos interesses de sua competência, nenhuma deve obedecer à outra, dentro dos limites de sua própria constituição. Disso não resulta, no entanto, que sejam desunidas por natureza e, menos ainda inimigas uma da outra. Com efeito a natureza não deu ao homem apenas o ser físico. Fê-lo um ser moral”. Consequentemente, ele procura um duplo aperfeiçoamento e a isso devem prover, em harmonia de vistas a Igreja e o Estado. Nenhuma luta, mais um constante cuidado, uma inteligente e esclarecida colaboração.

Certo que sendo católico o dirigente do Estado essa separação harmoniosa esse equilíbrio e esse acordo de que fala Leão XIII, terão melhores possibilidades e maiores esperanças de serem cumpridos.

É o que esperamos do govêrno do Sr. Kennedy.

(“Brasil Central”, Goiânia — fevereiro de 1961.)

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