Matriz de Ouro Branco

Carlos del Negro

2) Pintura do teto da nave – Continuação do número anterior

QUADRO

Representa S. Antônio, a Virgem e o Menino Jesus.

Estranham-se as cabeças roliças, bochechudas e joviais! Alguns anjos, entretanto, caracterizam a maneira de Ataide; especialmente típicas se apresentam as cabeças de S. Gonçalo e S. Jerônimo nos púlpitos (fora do quadro). As nuvens esféricas são duras: a parte superior da composição onde aparecem querubins sôbre o céu amarelo dourado é frouxa, lisa e vazia. Constitui a parte inferior da composição um embasamento bruno claro, feio, com divisões horizontais e verticais das tábuas e semelhança de ladrinho, sôbre o qual assenta um estrado vermelho.

O Menino Jesus, faceiro, com faixas brancas, amparado pela Virgem está de pé sôbre a mesa revestida de pano verde onde se vê o Evangelho junto a Santo Antônio. Os anjos e querubins vieram do céu para assistir ao milagre. O Menino Jesus oferece a mão esquerda para o Santo beijar e traz na outra em nuvens, com túnica branca e manto azul. Na cabeça, panejamento amarelo já assinalado em outras composiçães de Ataide e irradiação de luz branca sobre o fundo amarelo.

A composição nas extremidades superior e inferior perde a força. O tipo das cabeças roliço, bochechudo faz que alguns querubins se assemelhem a verdadeiras bolas. Os cabelos apresentam-se indiferentemente louros ou castanhos: O Menino Jesus é louro. Os olhos escuros chegam quase a se aproximar da côr negra. A carnação dos anjos pode resumir-se assim: tom fundamental rosa-carne e meias tintas verdes se reproduzem também no rosto de Santo Antônio e na cabeça da Virgem. Na atitude de Santo Antônio observa-se a superflexão de cabeça sôbre o pescoço.

Surpreende a jovialidade de tôdas as figuras! A Virgem senta-se como se estivesse recostada; seu rosto redondo não acentua o mento ou melhor dito, inscreve-se num retângulo. As mãos e os pés possuem dedos longos. A conformação do pé e da perna sôbre os quais pesa o o corpo do Menino Jesus concorda com a do Cristo em Ascensão na capela-mor da matriz de S. Bárbara. Além disso, um dos anjos exibe o ante braço curvo observado em outras composições de Ataide.

Creio que êsse tipo característico das cabeça de Ataide se deva à influência de estampa. O mesmo acontece com a figura que simboliza. A Igreja pintada no teto sob o côro: esta é a que mais foge ao tipo.

OUTRAS OBSERVAÇÕES

Os lados da nave estão aproximadamente na razão de 1:3(11X26 passos). Nave muito longa, obrigou Ataide, para manter a largura da moldura do quadro aproximadamente igual a têrça parte da largura da abóbada, a suprimir da composição os consolos e quase todo o muro-parapeito. Representou apenas a parte superior desse muro: por isso a arquitetura sustentante parece enterrada Apesar das suas belas côres, esta é retilínea, dura, fria, lembrando postes do telégrafo: faltam os consolos que se salientam e arremessam a arquitetura para dentro da nave. O arco central pousa sôbre o muro lateral e, depois em alinhamento oblíquo para as extremidades, as colunas das arcadas contínuas desviam-se para fora, longe da nave, enterrando-se em virtude da perspectiva e perdendo de importância. Advinha-se a dificuldade de compor para as proporções desta nave que exigiram o sacrifício da visibilidade de parte da arquitetura sustentante. Ainda mais, sente-se uma impressão de desajeitado: há vazios para aliviar a parte sustentada, para não a tornar tão pesada. Além disso, ocorrem na pintura grandes áreas lisas ou muitos elementos retilíneos, portanto inexpressíveis, isso apesar do concheado sustentado apresentar-se ondulante e ricamente policrômico. O teto da composição pintada não se eleva imponentemente, agravando-se a sensação de baixeza por dilatar-se além da largura da nave nas extremidades, devido ao alinhamento obliquo das arcadas contínuas. Só o resultado não satisfez totalmente, a inovação das arcarias deve caber a Ataide. As pinturas das naves das Matrizes de S. Rita Durão e S. Bárbara com arcarias de alinhamento curvo e tintas de má qualidade lhe sucederam.

O alinhamento do muro-parapeito entre pedestais e plintos encurva-se levemente reentrando. Sôbre os plintos pôs vasos de côr azul suja imitando flor campanulácea de gargalo estreito e bordos em gomos.

O comprimento da moldura do quadro alcança aproximadamente um têrço do comprimento da nave. Por êsse motivo, o artista lutou para encaixar a composição quadrada em retângulo tão longo. As partes superior e inferior da composição, frouxas e vazias, não convencem.

Os balcões dos cantos com fundo chato e liso, que por contraste se distinguem muito, não só perspectivamente mas também pela côr vermelhão, da arquitetura grísea clara e fugidia, empobrecem a pintura.

A Virgem do quadro de S. Antônio não deixa de ter o tipo de certas mestiças claras e gordas que se encontram no interior de Minas. Difere realmente da conformação habitual dada por Ataide, a cabeça quadrada da figura que simboliza a Igreja no teto sob o côro.

Há ainda aí alguns painéis que afiguram paisagens portuguesas: uma delas representa fortalezas no rio Tejo. Aludem à vida de S. Antônio?

Sôbre o muro do arco-cruzeiro a tarja pintada, recortada em tábua com dois anjos ladeando o emblema, pertence a Ataide.

A pintura a têmpera está junto aos muros do côro: atingiu os balcões-púlpitos de S. Clara e S. Gertrudes.

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A SEGUIR: IGREJA DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DE ITABIRA

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