Carlos Del Negro
1) Pintura do teto da capela mor.
A autor da interessante decoração desta abóbada de berço cabe ao pintor do teto da Igreja de S. Francisco do Caeté. O mesmo tipo de anjos que a caracterizam por nariz reto, largo, longo e em alguns vistos de frente pela testa curta e pouco crâneo, isto é, predomínio do nariz. O Padre Eterno em atitude idêntica apresenta os mesmos caracteres e côres no planejamento. Observa-se igual parcimônia no uso das flores azuis: os lírios brancos grandes de cinco pétalas com traços brunos avermelhados, a madressilva, as fôlhas azuis miúdas e compostas. Termina as asas e concheados de modo semelhante, modelando-os nas luzes com branco e nos escuros e meias tintas por tracejado que se harmoniza às suas côres.
A paleta colorida estende-se desde o vermelho, azul intenso, verde, amarelo-gema, côres térreas até o prêto.
Nas camações, usa tom fundamental róseo com acentuações vermelhas nas faces e brancas nas luzes, suavemente fundidas: nas meias tintas ainda os verdes. Detalha as sobrancelhas, divisões das pálpebras, pupilas, nariz, rasgo da bôca, depressão sub-labial com filêtes brunos. Acentua o contôrno das mãos e pés por filêtes brunos; modela as barbas também por filêtes. Há sinais de repintura em alguns pontos da decoração.
Quanto à trama arquitetônica sustentante salta aos olhos a influência da pintura do teto da capela-mor de S. Bárbara nos entablamentos transversais, inclusive nas côres das colunas
cores das colunas – a primeira azul e a segunda amarela – nos concheados envolvidos por enrolamento semi-circular amarelo postos sôbre o entablamento, característicos de Ataíde (S. Francisco de Assis, Itaverava, S. Bárbara).
Esse autor, porém, se diferencia por não ter predileção pela arquitetura pois êle a fragmenta e não se dá conta das funções exercidas pelos seus elementos. Assim prescinde do arco entre as ordens arquitetônicas de entablamento transversal à parede lateral da capela-mor, representadas por quatro grupos de duas colunas, dois de cada lado. O balcão central idêntico ao da pintura da capela-mor de S. Bárbara, perfurado com ornato, em forma de oito, localiza-se entre suportes tabulares, existentes também naquela; êstes com capitel circular. Não se preocupa em centrar a coluna no pedestal, Mas os capitéis e entablamentos, com a consistência de papel fino se reduzem a simples ornamentos. O entablamento não discrimina a arquitrave, friso e comija: trata-se de um jôgo de molduras. Os capitéis também se transformam em concheados com enrolamentos presos por uma flor ou ornamentados pela flôr. Imprime perspectiva da arquitetura um traçado que a faz dançar até atingir a agitação.
Os concheados exibem as mesmas perfurações longas, estreitas e paralelas duas a duas vistas em S. Francisco do Caeté.
A decoração não se encadeia nem ao altar-mor, nem ao arco-cruzeiro. Os quatro púlpitos de canto estão lançados a um plano secundário, sem finalidade e aparentemente pousados sobre a címalha real de madeira. Os balcões, um em cada centro da parede lateral, apresentam-se vazios. Atrás das colunas coincidindo com os seus eixos, os troncos das árvores lançam copas cônicas e galhadas horizontais verde-garrafa escuras, modeladas com pinceladas paralelas de verde esbranquiçado nas luzes. Ao longo do altar-mor ou arco cruzeiro corre uma faixa emoldurada que se liga aos balcões de canto.
As côres intensas dão vida à pintura, mas o artista ceia fantasia a arquitetura; quer-lhe tirara o caráter estático atribuindo-lhe a flexibilidade dos concheados.
Uma das colunas, a de frente, azul, começa torsa, depois por meio de um anel dourado continua para a cima cilíndrica com caneluras retas. O muro-parapeito desapareceu (em S. Francisco de Caeté também); apenas se vêem as partes superiores dos pedestais de uma das colunas geminadas. Entre as colunas e o público encostado ao canto, um vaso invisível expande flôres; essa disposição repete-se nos outros cantos da abóba-da.
O fundo é inteiramente branco.
A decoração alternou-se bastante pela chuva e há sinais de repintura; conservou-se, entretanto, melhor que a de S. Francisco de Caeté.
Distingue-se este autor pelo caráter fantasioso da composição até certo ponto anárquico, desinteressando-se da função dos elementos caprichados como são os concheados.
NO PRÓXIMO NÚMERO: O Quadro e Pintura do teto da nave.