O amadurecimento político de uma nação se coloca concomitatemente com a atuação viva e destacada de doutrinas no cenário nas lutas partidárias. De idéias, digamos assim, que sirvam de bandeira ou de diretrizes aos homens, e não que vão a reboque dêles.
A esterialidade política se denuncia pela multiplicidade e a dispersão de valôres num plano de disputas pessoais e causas de circunstância. Às ideias,que se configuram desde os mais altos princípios políticos até as tendências e planos administratios, precisam ser dadas entre nós as oportunidades que não têm faltado ao indivíduos. Porque afinal os homens valem enquanto, consciente ou inconscientemente, servem causas, e não há causa que se justifique tão só pelo arrôjo, a arrogância ou a popularidade de um homem.
Analisando o panorama político em nossa terra, um fato chama-nos a atênção: o número elevado de partidos, números êste que parece tender ao crescimento.
O fato desta multiplicidade poderia sugerir-se auspicioso, talvez uma prova de vitalidade democrática e um fecundo entrechoque de variadas doutrinas. Mas, examinando a mantalidade política que tem prevalecido, o modo como se costuma entre nós fazer política e a realidade política brasileira, chama-nos igualmente a atenção o papel totalmente acessório que a doutrina desempenha em nossos partifos, cujo elemento de coesão se cinge habitualmente a interêsses de grupo ou à influência de lideranças efêmeras. Noutras palavras: não há – ou não se faz sentir – vitalidade de facção. O Jôgo de interesses restritos e da política utilitarista é intenso e sem dúvida pernicioso. Não costuma haver a presença da idéia, da doutrina, de princípios políticos bem estabelecidos que sirvam de diretrizes para tudo mais. Se há não é presença atuante ou levada bastante a sério. Pêso da política recai fàcilmente sôbre as ambições.
O jôgo de interêsses de facção, e não sôbre linhas de filosofia política em confronto ou a competição de idéias que polarizem os empenhos pessoais.
A militância partidária se põe assim em plano via de regra muito baixo, onde a política tende a perder seu sentido, entregue a um pragmatismo grosseiro, que não leva na devida conta o bem comum. O que distingue um partido de outro não é tanto a diferença de programa, pôsto sempre um plano secundário, mas a relação dos adeptos ou os interêsses de “panelinha” política. Caracterizando esta tendencia negativa da democracia parlamentar baseada na fôrça do número (tendência, aliás, que pode ser evitada ou atenuada), escreve um conhecido pensador francês: “O principal (incoveniente) é dividir o país em partidos hostis, que estão em competição permanente para a conquista do poder e mantém na nação um estado de agitação prejudicial ao bem comum. Além disso, o partido no poder é sempre suspeito de governar em seu próprio interêsse e de fato é naturalmente levado a favorecer seus adeptos, facilitando-lhes o acesso às funções públicas e a ganhar a confiança dos eleitores por medidas de pura demagogia. Finalmente, a autoria do govêrno está à mercê das facções que o mais caro possível seu concurso.
De “O São Paulo, 31-2-961