Convoca João XXIII o Concílio Ecumênico para o bem da humanidade

por JAMES O’NEILL

VATICANO, jan. (NC) – Ao convocar o Segundo Concílio Vaticano, S. S. o Papa João XXIII declara que essa reunião, em 1962, de tôda a hierarquia da Igreja, será para o bem da humanidade inteira.

A bula pontifícia, de umas 2.500 palavras em latim, não específica data exata.

O Concílio é para o bem da Igreja em primeiro lugar, diz o Soberano Pontífice, ao promover “a santificação pessoal de seus membros, a difusão da verdade revelada e a consolidação de suas organizações”.

Mas beneficiará também os cristãos que buscam a unidade, ao dar-lhes “premissas de claridade doutrinal e caridade recíproca” que facilitem o retôrno a um só rebanho.

“Finalmente, a um mundo perdido, confundido e agoniado pela constante ameaça de horrendos conflitos, o futuro Concílio oferecerá uma oportunidade para que todos os homens de boa vontade voltem seus pensamentos e intenções para a paz.”

O histórico documento – chamado Humanae Salutis – foi lido do pórtico da Basílica de São Pedro por Mons. Pericle Felice, secretário geral da Comissão Central Preparatória do Congresso, minutos depois de recebê-lo das mãos do Papa.

Um vento frio açoitava as cortinas de musselina que protegiam os cônegos da Basílica, sentados durante a cerimônia junto às portas de bronze.

Mons. Felice alçou a voz, de uma espécie de púlpito coberto de fazenda vermelha com adornos dourados, para entoar em latim as primeiras palavras da fórmula tradicional na leitura das bulas pontifícias:

“João, Bispo, servo dos serbvos de Deus, para perpétua memória…”

E prosseguiu lentamente:

“Após atender a opinião de Nossos irmãos os cardeais da Santa Igreja Romana, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e com nossa própria autoridade. Nós instituímos, anunciamos e convocamos para o ano próximo de 1962 o concílio universal e ecumênico que se celebrará na Basílica do Vaticano durante os dias que serão posteriormente anunciados e segundo a oportunidade que a Divina Providência se dignar dar-nos.”

A plausos interromperam a leitura. As palavras do Papa convidavam também os fiéis católicos e os crentes não católicos do munod inteiro, a rezarem pelo feliz êxito do concílio.

A presença de Cristo em sua Igreja, diz a bula nota-se com maior intensidade, “nos mais graves períodos da humanidade… como na crise atual”.

Faz o Papa, em seguida, um contraste entre a confusão e a intranquilidade que agoniam o homem de hoje, e a vitalidade da Igreja Católica, cuja missão é “levar ao mundo moderno as energias vivificantes e perenes do Evangelho.

Êsse mundo, repete, “que se exalta com suas conquitas no campo técnico e científico, mas que se humilha também ao pretender impor as consequências de uma ordem meramente temporal, que muitos querem reorganizar excluindo a Deus.”

Por isso é que a sociedade moderna mostra um grande progresso material sem que tenha o correspondente avanço no nível moral”, acrescenta.

Enfraquece-se assim o interêsse pelas coisas do espírito, sacrificadas à quase exclusiva procura do prazer. Surgiu igualmente “um elemento novo e desconcertante no mundo: a existência de um ateísmo militante que exerce sua atividade no plano mundial”.

Encontra contudo o Papa sinais de esperança e vê nas duras lições do presente uma promessa de melhores tempos.

Suas[1] almas pusilânimes só vêem as trevas que cobrem a face da terra. Mas Nós preferimos reafirmar nossa confiança em Nosso Salvador que não abandonou o mundo que Ele redimiu.”

“O progresso científico que deu aos homens o poder de criar intrumentos catastróficos para sua própria destruição… obrigou-os a refletir, com mais consciência sôbre suas limitações, a desejar a paz com maior ânsia e a reconhecer a iuportância dos valores reitores do espírito.”

Aqui estão a vitalidade da Igreja, as imensas energias do clero e a ajuda crescentes dos leigos, diz em seguida a bula. Aqui estão também os sofrimentos de povos inteiros cujos bispos, sacerdotes e fiéis realizaram atos de heroísmo “certamente iguais aos que adornam os períodos mais gloriosos da história da Igreja.”

“Essa Igreja, parecendo em profunda mudança… (corresponde) a uma comunidade cristã também transformada e renovada em grande parte… robust-cida socialmente na unidade, revigorada intelectualmente, purificada no íntimo, e portanto, disposta e pronta para as vocações.”

Por isso, antes “a pobreza espiritual do mundo” e a vigorosa vitalidade da Igreja, decidimos, diz o Papa, convocar o concílio ecumenico, “continuação da grandiosa da grandiosa série de vinte concílios”. Assinala depois ao colhimento que o seu anúncio teve entre os fiéis, e o interêsse despertado entre os dissidentes.

“Isto demonstra que a ninguém escapa a importância histórica dêste evento!

Aponta Sua Santidade entre os temas do concílio, o estudo das Sagradas Escrituras,a tradição, os sacramentos, a oração, a disciplina eclesiástica, as atividades de assistência social e de caridade, o apostolado leigo e as missões.

Mas o concílio também tratará de assuntos de ordem temporal, como os que recentemente focalizou a “Mater et Magistra” sôbre a questão social.

“Finalmente podemos anunciar com júbilo que êste trabalho intenso de preparação e estudo da parte dos cardeais, bispos, prelados, teólogos, canonistas e técnicos do mundo inteiro, cuja contribuição tem sido incalculável, chega agora ao seu término.”

Neste ponto o Papa convoca o segundo Concílio Ecumênico. Uma multidão de fiéis que rodeava o pórtico prorrompe em aplausos; as câmaras de televisão transmitiam o anúncio.

A bula convida e ordena concorrerem ao Concílio os cardeais, patriarcas, primases, arcebispos, bispos (incluindo os titulares) e outros prelados de todo o mundo: e pede aos fiéis que elevem orações pelo bom êxito das deliberações.

“De forma muito especial confiamos êste evento às orações das crianças, sabendo muito bem quão poderosa é diante de Deus a voz da inocência; como confiamos igualmente nos enfermos e nos que sofrem.”

Mais adiante o Papa também pede as orações dos cristãos separados, sabendo muito bem que “muitos dêsses filhos anseiam pelo retôrno à unidade e à paz.”

Ao terminar a leitura da bula com uma oração. Mons. Felice e os cônegos entraram na basílica para celebrar uma missa de ação de graças. Sucessivamente no decorrer das horas repetiu-se a leitura da bula na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, na Basílica de Santa Maria Maior e na Arquibasílica de São João de Latrão.

[1] Esta palavra não está legível no volume digitado e não foi possível a procura de outro volume da mesma edição.

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