Matriz de N. Senhora do Rosário de Itabira

Carlos Del Negro

(Continuação do nº anterior)

QUADRO

A composição figurada, complexa, cheia, sorecarregada, ocupa quase tôda a área entre os concheados. Em baixo, dentro da moldura de concheados e enrolamentos, um dragão com a maçã na bôca dirige o olhar para cima. O monstro amarelo, envôlto em chamas, deitado sôbre o terreno esverdeado representa-se por filêtes e raros tracejados escuros e brancos que particularizam escamas, orelha, ôlho, etc.

Atrás montanhas esverdeadas com luzes brancas.

No horizonte nuvens brancas, gríseas e algumas negras sôbre o céu avermelhado que se esbate até o branco. Anjos e querubins amontoam-se aos pés da Virgem sentada e coroada, com o Menino Jesus que entrega o rosário a um frade negro; outra figura da Igreja muito prejudicada pelas chuvas recebe o rosário da mão de Nossa Senhora. As pernas da Virgem foram repintadas, por isso mesmo, perderam o desenho e o escôrço, parecendo desproporcionadas em relação ao torso. O manto azul claro que as cobre perdeu o vigor, pois lhe faltam os filêtes que acentuam as dobras profundas e marcam o desenho.

Em plano superior (de cada lado) os anjos em adoração e acima de tudo o Padre Eterno com os braços abertos. O fundo amarelo-ouro pálido contém nuvens alvas e irradiações do triângulo branco da cabeça do Padre Eterno. Finalmente junto ao concheado o céu descobre-se azul.

As figuras, em geral, têm o rosto retangular cheio: desenha com apuro as extremidades, os narizes curvos côncavos em querubis de perfil, que pertencem ao autor da repintura. A porção tarsal da pálpebra superior é desenvolvida, Os rasgos das bôcas depois de abertos por filete escuro receberam nos lábios acentuações vermelhas da mesma intensidade que as das faces; os lábios arqueam-se bastante. O pintor disseminou toques brancos no nariz, da chanfradura até à extremidade, em tôrno do lábio superior e no mento. Os cabelos são louros ou castanhos: os olhos escuros, Os cabelos gríseos do Padre Eterno esvoaçam como em S. Francisco de Caeté, com tipo de certas ilustrações germânicas. Nossa Senhora veste camisa vermelhão, túnica branca, manto azul claro e em tôrno do pescoço pano púrpura. O artista costuma entumescer o deltóide de mesmo coberto com panejamento, arredondando-o. Além de filetar os dedos, dá-lhes nas extremidades acentuações avermelhadas fundidas e quando em sombra esverdeadas. Não usa terras de sombra na carnação. Para se manter leve sem sombras pesadas, costuma filetar tudo conseguindo modelar por tracejado.

As asas do Espírito Santo contam com um plano de penas gris azulado claro na luz e outro gris azulado escuro na sombra; na divisão dos planos e das penas ganham filête escuro.

As pedras preciosas vermelhas, azuis da coroa da Virgem são idênticas às da tiara do papa de S. Francisco de Caeté.

As rosas, além de modeladas com branco (amarelas e rosas comuns), recebem filêtes escuros e brancos. Os lírios em botões ou abertos mostram filêtes brunos avermelhados. Aparece também uma flor vermelhão que lembra a da romã e a flor de pétalas azuladas claras com grande centro vermelhão granulado. As fôlhas, tanto as maiores quanto as menores, com as extremidades redondas guardam a forma do toque do pincel.

Os panejamentos caem em dobras variadas com as extremidades esvoaçantes e côres modeladas com branco: embora movimentados, usa também filêtes escuros nas dobras para imprimir-lhe direção.

2) Pintura do teto da nave.

Teto dividido em 20 pequenos painéis retangulares ornamentados com vergênteas de rosas e enrolamentos, dispostos ao longo dos lados do retánbulo. Essa decoração pertence ao mesmo artista que pintou a tarja sôbre o arco-cruzeiro. Não se trata do autor da pintura da capela-mor

-FIM-

Nota-Esta série de artigos sôbre as Pinturas das Igrejas de autoria de Carlos del Negro-do livro CONTRIBUIÇÃO AO ESTUDO DA PINTURA MINEIRA- n.º 20 da “Publicações do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional” – Rio de Janeiro – 1958 – foi iniciada no n.º 92 de 18 de junho e apresentou o comentário sôbre as Igrejas de MARIANA, OURO PRETO, CACHOEIRA DO CAMPO, ITABIRITO, CONGONHAS, ITAVERAVA, SANTA RITA DURÃO, NOVA ERA, SANTA BÁRBARA, OURO BRANCO e ITABIRA.

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