Um dos argumentos usados pelos comunistas em favor de suas ideias é que os povos livres são explorados por interesses capitalistas. O pobre, o trabalhador não tem saída, não pode subir na escala social, sua vida é feita de miséria e desespero. Somente revolução comunista pode libertá-los da exploração do homem pelo homem. O princípio dinâmico dessa revolução é a “luta de classe”.
OS MARXISTAS soviéticos não podem falar muito em capitalismo sem brincarem com faca de dois gumes. O regime comunista — fácil mostra-lo — se transforma rapidamente em CAPITALISMO DO ESTADO. A classe patrão, privilegiada “burguesa” foi substituída por uma classe privilegiada COMUNISTA. Ser alto funcionário do “trust” comunista ou alto funcionário de um “trust” internacional ser grande patrão soviético ou grande patrão capitalista garante os mesmos padrões de vida, carros, motoristas, palacetes e casas de campo além de festins e férias.
RESSALTESE que o poder de um Comissário ou de um Diretor de fábrica é práticamente absoluto enquanto obedecer ao chamado APARAT. (Por este termo se designa na URSS a equipe restrita e selecionada de chefes, agentes e executantes comunistas que formam o quadro do partido, embora possam não pertencer oficialmente a ele). O Aparat coloca à disposição dele todos os meios de repressão todas as facilidades de pressão e, frise-se isto, não permite nem greves, nem atrasos ou faltas.
DO PONTO de vista social e quanto às facilidades de mando o capitalista em nossa terra deve invejar o seu colega soviético. Noutras palavras, isso significa maior exploração dos trabalhadores. Enquanto os operários Russos não têm direitos os trabalhadores no Brasil — para, exemplificar — podem reclamar e até mesmo impor seu salário. Podem ir à greve e, sobretudo, escolher o lugar ou a empresa em que preferem trabalhar. Com sacrifício esforço, estudo e boa vontade, o operário brasileiro pode tornar-se independente e chegar a ser patrão.
ALGO ilustrativo disto: Nas últimas eleições na Inglaterra, o Partido Trabalhista foi derrotado de maneira espetacular. Os líderes trabalhistas que se reuniram para estudar as causas da derrota declararam o seguinte: 1º — A nacionalização das indústrias produtivas não é mais um argumento popular para os ingleses. 2º — Deve ser retirado da propaganda trabalhista o “slogan” da luta de classes porque esta NÃO TEM MAIS RAZÃO DE SER. O trabalhador inglês, evoluído e democraticamente amadurecido, percebeu perfeitamente a incoerência da luta de classes. O que deseja é ordem e aperfeiçoamento na colaboração das classes.
Na Inglaterra, apesar do regime de monarquia constitucional a aproximação social, financeira psicológica entre empregadores e empregados processou-se muito rapidamente.
Enquanto isso, na União Soviética ocorre o inverso. A sociedade se subdivide em classes bem definidas; pois o regime totalitário criou uma sociedade de seis classes distintas, cuja diferenciação é maior do que em qualquer país civilizado. A população apta ao trabalho pode ser apresentada da seguinte forma: 1.ª CLASSE: 2 a 6 % são rebaixados ao estado animal nos campos de trabalhos forçados. 2.ª CLASSE: 53 a 56 % são operários e camponeses, cujo salário é inferior ao nosso salário mínimo. 3.ª CLASSE: 26 % são funcionários administrativos e técnicos que vivem à semelhança de nossos funcionários das classes “D” a “G”. 4ª CLASSE: 5,4% são militares e policiais com regime privilegiado em relação aos empregados civis das mesmas categorias. 5ª CLASSE: 6,5% são tecnocratas (engenheiros superiores, médicos, cientistas, etc.) os quais ganham de 6 a 34 vezes mais do que a média da classe “C”. 6ª CLASSE: 3,2% são os altos burocratas que vivem em luxo fabuloso.
Estas três últimas classes privilegiadas, além de viverem isoladas da massa, têm outras regalias à sua disposição, ou sejam restaurantes, piscinas, clubes e “boites” nos quais só entra quem estiver munido de documento provocando uma alta posição na hierarquia administrativa.
O que acabamos de expor constitui sólida argumentação para refutar a frágil tese comunista. Mas podemos ir a terreno mais positivo e mostrar, sem nos afastar desse único ângulo aqui abordado, outras vantagens da Democracia dentro deste campo.
A DEMOCRACIA, tal como foi herdada do regime capitalista liberal, não é perfeita. Se o trabalhador tem o direito de associação sindica, os patrões podem associar-se em “trust” e consórcios. Ora, nem o trabalhador nem o patrão dêtem o privilégio de ser pobre ou rico. A verdade é que o dinheiro facilita os abusos. Em consequência, o regime democrático moderno deve coibir os abusos e refrear a prepotência dos “trusts”. Para isso, dispõe de uma estrutura privilegiada: a separação dos poderes — o executivo, legislativo e o judiciário. Estes se controlam entre si, protegendo o Governo das pressões econômicas e sindicais.
Além disso, renova sua equipe dirigente mediante eleições livres. O pêndulo da verdade popular, cada quatro ou seis anos pode substituir os dirigentes nacionais de acordo com a pressão da OPINIÃO PÚBLICA SADIA que funciona como regulador principal do jogo democrático. Formar uma opinião pública ativa, honesta e enérgica equivale a construir a democracia.
Oprimir a opinião pública, deturpá-la, MONOPOLIZAR OS MEIOS DE EDUCAÇÃO a imprensa e o rádio, equivale a destruir a democracia, a permitir os abusos, a criar o regime de corrupção e de opressão, isto é, a ditadura totalitarista. Esta é a estática; não se renova pelo assassínio ou depuração sangrenta. É exatamente isso que faz o comunismo.
Os dirigentes das empresas como os dirigentes sindicais e políticos podem ser educados. A melhor escola é o público, a liberdade de agir e de criticar, a liberdade de corrigir erros e construir o complexo sistema que rege nossa sociedade moderna.
A exploração de homem pelo homem é tão velha como o mundo. É igualmente odiosa quando se processa na escola, no ambiente familiar, numa chácar ou num gigantesco consórcio industrial.
O comunismo a favorece porque está baseado na prepotência de uma classe. A democracia não a suprime inteiramente, mas dá ao povo os meios de a coibir e chegar assim, progressivamente a um mundo mais justo, mais equitativo e mais feliz.
COM ISTO, tudo não queremos de maneira alguma, salientar os males do comunismo, apresentando qualidades no capitalismo liberal. Tanto o comunismo, quanto o capitalismo sem freios, são condenáveis materialistas, ateus a -pesar de se apesentarem de forma diversa. A solução mesmo, reside na democracia cristã, cuja ideia central, revolucionária, é simples e única: fraternidade entre os homens.
(“Diário de Notícias” de Ribeirão Prêto — Janeiro, 1961).