UMA diferença fundamental entre a mentalidade democrática e a mentalidade marxista é que aquela acredita no povo e na sua capacidade de autodeterminação e esta menospreza o povo, acreditando apenas na capacidade da “aristocracia” comunista que forma sempre uma pequena minoria.
ESTA diferença não tem sido bastante destacada e muitas vêzes passa despercebida quando se fala em China “Popular” ou em República “Democratica” Alemã. Os têrmos, dentro da mentalidade marxista e de seus processos, têm importância capital. O comunismo, que é subversão, é também subversão do sentido das palavras. Certas mentiras ganham vêzes de verdade quando constantemente repetidas, e mesmo coisas antípodas como democracia e comunismo ou povo e comunismo, de tanto a propaganda marxista repetí-las em associação, podem errôneamente passar por palavras irmãs.
NÃO foi em vão que URSS e Alemanha Nazista estiveram aliadas quando se preparava a Segunda Guerra Mundial. O regime imperante no terceiro Reich e na União Soviética eram do mesmo naipe. Retratavam uma mesma mentalidade: a de homens que querem o poder passando por cima da vontade popular. A mentalidade policial e discricionária. O imperialismo que começa por usurpar os direitos populares. Como ontem os nazistas, hoje os comunistas convictos se consideram como formando uma classe à parte, superiormente dotada, uma aristocracia intelectual destinada a comandar as massas amorfas e inconsequentes. O comunista não acredita noutro “povo”, quando fala em ser “popular”, senão na sua panela, nos adeptos totalmente integrados à causa marxista, ao que se chama “aparat”. São os novos iluminados, que têm nas mãos a chave de todos os problemas sociais e não vacilam em espezinhar qualquer coisa que na democracia se considere “o povo”. Por isso mesmo, a “autodeterminação” é coisa que, em seu verdadeiro sentido, para o comunista não existe senão nas palavras. Não há senão a determinação do partido comunista, todo poderoso e único, inefável à sua maneira. Que é capaz de jogar mesmo com a velha doutrina Marx-Engels segundo seus interêsses, que são hodiernamente os interêsses, que são hodiernamente os interêsses do Kremlin.
O COMUNISMO é algo imposto “de cima para baixo”, e não, como a democrácia, um desenvolvimento espontâneo do povo, como o crescimento de uma árvore, de dentro para fora. Não foi a doutrina marxista que, por sua fôrça lógica, veio a dominar 2/5 de humanidade. O segredo da conquista vermelha tem sido meramente a fôrça, expressa por diferentes meios, mas sempre a fôrça, contra o poder do direito. Os exemplos de Kerala e da Guiana Inglesa são tão contrastantes (embora falsamente) que não cessam de ser destacados. Na própria Pátria do comunismo, êste se impôs pela revolução sangrenta e pela usurpação de poucos sôbre a imensa maioria. A inocência ou a cegueira de muitos democratas igualmente têm servido vigorosamente os planos comunistas. Fato, aliás, que deveria servir de advertência a muitos de nosso, flexíveis democratas.
POR ESTAS e por outras é que, por exemplo, falar em autodeterminação do povo cubano, sob o regime policial e totalitário como o comunista. Há todo o contrário de uma autodeterminação, porque o povo não é ouvido na autenticidade insubstituível de sua voz.
TENDO em vista isso, é que é fácil saber porque o maior adversário do regime comunista é a livre opinião pública. Nda existe tão pouco e é tão combatido no regime marxista como a opinião pública espontânea, saudável. Porque desde que saiba o que é comunismo, povo algum o escolhe livremente por regime político. Quem quer ser escravo, tendo conhecido e vivido a liberdade? O povo ama a liberdade, quer respirar profunda e livremente, e o regime comunista representa precisamente uma intoxicação do clima da liberdade, o fechamento dos respiradouros para uma vida normal e responsável, a substituição e a deturpação das fôrças populares por sucedâneios mais cedo ou mais tarde insuportáveis.
MAIS cedo ou mais tarde, o comunismo revela onde se encontra o seu segredo: na fôrça. Como já dissemos, a fôrça pode assumir formas variadas, que à cada passo a disfarçam hàbilmente. Mas, no fundo êste poder delineia o seu sentido: o poder do esbirro do czar, agora com novas roupagens. Digamos assim mais “Científico”.
Do “Diário de Notícias”, de Ribeirão Preto, 10-1-962